Há alguns anos, o normal era que nós, biólogos, entusiastas da biologia ou simplesmente quem prezasse pela verdade, rebatêssemos os argumentos da direita religiosa e criacionista que dizia, tentando manchar o legado de Charles Darwin para as ciências biológicas, que ele era racista. Hoje, as acusações de racismo vêm da esquerda, e tem toda uma ideologia muito bem pensada junto — uma com um potencial muito mais destrutivo do que um "criacionismo da Terra jovem" ou qualquer besteira que o valha.

Mas os criacionistas atuais não são mais os mesmos de antes — religiosos, que tinham as duas mãos no status quo. Hoje, quem tem o poder de "cancelar", ostracizar alguém, reescrever a história, é o criacionismo da esquerda: aquele que pensa que a teoria da evolução só explica as coisas "do pescoço para baixo" (isto é, que não se aplica ao cérebro e ao comportamento, porque aí é cultural), ou que é uma "invenção colonial que subjuga saberes alternativos". O novo criacionismo conseguiu questionar, a partir da régua da própria ideologia, tudo que o antigo nunca conseguiu. É o criacionismo socialmente aceito.

E o mais inquietante é que boa parte de quem dedicava esforços a combater os anticientíficos do passado, quer biólogo, entusiasta ou curioso, está fingindo que não vê a nova onda de anticiência vindo do outro lado do espectro político, seja por condescendência ideológica ou por pensar que os fins justificam os meios. Um grande erro.

https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/noticia/2020/09/exposicao-de-darwin-em-londres-sera-revista-porque-pode-ser-ofensiva.html

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