Tem um lado positivo nessa pandemia que eu detecto aqui em casa: o incentivo crescente ao empreendedorismo. As pessoas estão reconhecendo que, embora ter renda fixa e seguridade social seja o melhor dos mundos, esse mundo é pruma minoria, e não pra todas as pessoas. Por isso, é preciso ter cartas na manga, é preciso descobrir novas habilidades, é preciso aceitar a modernidade líquida de que falava Bauman, e parar de sonhar com um emprego pra toda a vida. Nos tempos de hoje, precisamos aceitar que passaremos por diferentes e variados empregos, algo que os freelancers e autônomos em geral conhecem bem: os "bicos" ou "jobs". Mas isso não significa que você nunca mais terá oportunidade de renda fixa. Na verdade, significa tão somente que você está tentando a sorte por outros meios, e porventura algum desses meios pode "ser o meio da sua vida", e então a galinha dos ovos de ouro pode surgir. Em outras palavras, no mundo do trabalho apenas a incerteza pode ser tomada como certeza, sendo totalmente ilusório não aceitar que as fontes de renda devem ser tidas como múltiplas para haver real sustentabilidade financeira (os investidores sabem muito bem disso quando falam em "diversificar sua carteira"). Mas, no Brasil, estamos precisando de uma pandemia com desemprego em massa ocorrendo pra que, finalmente, entendamos a necessidade de não esperar por milagres. Talvez com um pouco mais de drama o brasileiro entenda que deve parar de apostar na Mega-Sena e usar suas migalhas pra comprar ações e investir na bolsa, tal como os americanos tiveram que aprender depois de 29. No final do dia, resta o aprendizado que será compartilhado por aqueles que sobrevivem.