Quando você lê um artigo em língua inglesa, é muito comum que ele tenha sido escrito em primeira pessoa caso apenas uma pessoa o tenha escrito, e em terceira pessoa caso duas ou mais tenham escrito.
Isso parece tão adequado à escrita que pode soar banal notar esse detalhe, mas não é banal quando você, acadêmico brasileiro, é incentivado a sempre escrever seus textos de modo impessoal, como que distanciando sua escrita da sua própria identidade.
Ao invés de falar "neste artigo eu mostro que X implica Z", você é incentivado (para não dizer forçado) a escrever "neste artigo nós mostramos/é demonstrado que X implica Z". Você pesquisou sozinho, escreveu sozinho e concluiu uma coisa da outra sozinho. Mas a formalidade brasileira comumente exige que você escreva num tom de impessoalidade, ou como se sua escrita fosse sempre uma escrita coletiva. E eu acredito que isso pode vir a ter alguns efeitos estranhos no próprio processo de escrita.
Dentre os possíveis "transtornos" que a exigência de impessoalidade pode causar (não confundamos com exigência de imparcialidade, que é louvável), temos por exemplo a geração de uma mentalidade específica no acadêmico brasileiro, em que ele se crê sempre como apenas um coadjuvante do conhecimento, alguém que deve reproduzir mais do que produzir, alguém que está apenas repassando informações já dadas, sem muita brecha para ir além do que já está estabelecido pelo seu campo de estudo.
Obviamente, efeitos complexos são multifatoriais, e não podemos simplesmente derivar a falta de originalidade acadêmica no Brasil de uma simples causa como uma mera formatação estilística de textos. Meu ponto é que a forma como escrevemos invariavelmente influi sobre a forma como pensamos, e se somos levados a escrever como se estivéssemos (relativamente) ausentes de todo nosso processo de pensamento, tendemos a nos ver não como protagonistas, mas como coadjuvantes do conhecimento, e assim nos tornamos excelentes comentaristas de filosofia, mas péssimos produtores de filosofia propriamente dita — ficamos, portanto, à margem da inovação e da disputa global pelo progresso.
De fato, talvez seja um tremendo exagero o que estou dizendo, mas é sempre marcante ler um anglo-saxão escrevendo em nome de si mesmo, colocando não apenas seus argumentos à prova, como também relacionando-os à sua própria identidade, e pleiteando originalidade argumentativa frente à comunidade de especialistas, disputando o terreno do conhecimento com a exposição de seus acertos e de suas falhas, não se bastando em simplesmente reproduzir o que autor de renome X ou autor Y disse sobre um assunto, mas indo além e efetivamente confrontando o que tais autores, especialmente contemporâneos a si, estão dizendo sobre os mais diferentes tópicos.
Embora todos tenhamos um background sempre coletivo, é preciso admitir, com pessoalidade e em primeira pessoa: eu sou o responsável pelos meus raciocínios, e todos têm o direito de saberem o que penso, por que penso e como penso. Travestir a visão pessoal do acadêmico como se fosse uma visão institucional é uma ilusão desnecessária e que só fomenta a aversão ao risco de muitos acadêmicos que temem arriscar originalidade e, por isso, serem mal recebidos por seus pares.
A mera institucionalização da possibilidade de falar formalmente em nome de si mesmo é um passo necessário, e se os países desenvolvidos já fazem isso desde o começo da carreira acadêmica, não é sem motivo.