"Se aceitarmos direitos dos animais, chegará um dado momento em que até máquinas como controles remotos terão 'direitos' e será antiético usá-las para trocar o canal da TV..."
Vi há pouco esse argumento num dos meus últimos vídeos sobre veganismo. Embora seja um argumento falacioso (uma "ladeira escorregadia", que consiste em dizer que se A ocorrer Z ocorrerá necessariamente, numa cadeia de intrincamento causal), acredito que vale considerá-lo como um bom argumento, e respondê-lo de maneira simples.
De fato, embora não seja uma relação necessária, é possível que, um dia, o escalonamento dos direitos animais seja tomado como fundamento para o escalonamento de direitos a máquinas não-animais, a inteligência artificial ou coisa parecida, como controles remotos inteligentes.
Só que aí estaremos num ponto em que o moralmente fundamental nem é a condição animal (afinal tais máquinas não são animais, ao menos não numa perspectiva biológica), e sim alguma outra coisa. Essa outra coisa, nós estudiosos de Ética Animal costumamos chamar de senciência. Senciência nada mais é que a capacidade de seres vivos sentirem sensações e sentimentos de forma consciente.
Ora, se senciência é moralmente relevante (e portanto devemos considerar seres com senciência como seres minimamente respeitáveis), e senciência é algo que pode ser realizado em máquinas artificiais, então qualquer corrente moral que se baseie em senciência, se quiser ser coerente, terá que estender a consideração moral para qualquer tipo de ser senciente, seja animal ou máquina. Questão de universalização de princípios, algo já doutrinário em ética normativa pós-Kant.
Então, por mais contra-intuitivo que possa parecer à primeira vista, não é exatamente absurdo pensar que controles remotos possam um dia vir a terem direitos. Na verdade, absurdo é que um controle remoto seja projetado de tal forma que não será mais um mero controle remoto, mas algo diferente, algo novo, algo capaz de sentir e responder por si mesmo em algum grau. Absurdo seria uma sociedade criar esse tipo de máquina com capacidades sensitivas e continuar chamando ela de "controle remoto", sem qualquer utilização básica da nossa inteligência emocional para saber distinguir que já não se trata mais de um controle remoto, nos mesmos moldes dos que temos atualmente.
Absurdo, portanto, seria a inconsistência em estabelecer certos princípios como verdadeiros mas não querer ou não saber universalizá-los para além da espécie humana — o que é, na verdade, uma forma de relativismo moral.
Ora, quando uma pessoa contrária ao veganismo diz "e as plantas?", como que preocupado que elas também "sofrem" e, por isso, o vegano seria incoerente ao se alimentar de plantas e evitar o sofrimento de animais, o que a pessoa está dizendo é isto: "eu acredito que você deveria universalizar seus princípios e, para ser coerente, aplicá-los em benefício de exatamente todos os seres que sofrem". E se é isso mesmo que a mensagem quer dizer, então por que a pessoa que raciocina dessa forma, achando saudável se preocupar com "plantas que sofrem" (ignorando que é preciso antes estar consciente para sofrer), acharia absurdo se preocupar com "controles remotos que sofrem"? Só por que são controles remotos?
Sejamos sensatos: ou nossos princípios morais serão universais e não dependerão das barreiras naturais, ou não serão nada.