Devemos manter certos hábitos porque "sempre foi assim"?
Rosa Parks foi uma ativista negra norte-americana que se recusou a ceder seu lugar no ônibus a um branco, tornando-se símbolo da luta anti-racista por direitos civis dos negros nos Estados Unidos. Gary Francione, famoso acadêmico na luta pelos direitos dos animais, defende que, se fôssemos levar o apelo à tradição a sério, Rosa Parks ainda estaria sentada no fundo do ônibus. Veja o que Francione diz, na íntegra:
"Defensores da ingestão de carne alegam que, mesmo se a prática for desnecessária porque podemos sobreviver em boas (se não melhores) condições com uma dieta vegetariana, os humanos vêm comendo carne há séculos e a prática é justificada pela 'tradição'. Há, no entanto, ao menos dois problemas com esse tipo de argumento. Primeiro, historicamente, houve e há um certo número de culturas que não comem alimentos de origem animal; portanto, se houver uma tradição, não se pode caracterizá-la como aquela que compartilhamos enquanto espécie. De fato, até a era moderna — e especialmente até a ascensão do agronegócio — a maioria das pessoas no mundo comia menos, muito menos, carne do que hoje. Segundo, e mais importante, mesmo se houvesse uma tradição compartilhada por todos os humanos, ou apenas por alguns humanos, que diferença isso faria em termos morais? Se o uso de animais não é necessário no caso em questão, como qualquer tradição pode passar por cima dos interesses animais que estão em jogo, se esses interesses são moralmente significativos, conforme dizemos que são? Nas justificações morais, o argumento a favor da tradição sempre é, no mínimo, suspeito. A tradição, afinal de contas, tem sido frequentemente oferecida como justificação para o sexismo, o racismo e outras condutas que hoje reconhecemos como moralmente injustificáveis. Se fôssemos escravos da tradição, Rosa Parks ainda estaria viajando no fundo do ônibus."
Gary L. Francione, "Introdução aos Direitos Animais: seu filho ou o cachorro?", 2015, p. 66-67, Ed. Unicamp.