E aí, gostaram do primeiro vídeo com o Karnal? O Victor Naine (que também tem um canal de filosofia aqui no YouTube) fez um comentário daora lá, e eu respondi clarificando o motivo da minha pergunta ao Karnal. Vou colar abaixo minha resposta, porque eu tentei ser "desafiador", embora faltasse espaço e tempo pra desenvolver melhor essa conversa. Em breve posto outro vídeo com Karnal respondendo a outra pergunta que fiz. Enfim... Quanto à primeira questão sobre direitos humanos, lá vai um esclarecimento:
"o desafio da pergunta que eu fiz vai justamente ao encontro da possibilidade da defesa de valores universais, uma vez que, desde sua concepção, os direitos humanos pretendem-se universais, ainda que sejam historicamente consolidados. A resposta do Karnal, se interpretei bem, vai de encontro com a noção de que não existem ou não podemos acessar o conhecimento relativo a valores universais, atemporais e a-históricos, mas o debate não se encerra aí, o pessoal da meta-ética sabe disso. Afinal, Karnal parece defender, embora provavelmente sem saber (ele não é da ética), uma posição ou de tipo relativista ou de tipo construtivista. De toda forma, vamos assumir que sua defesa é construtivista, uma corrente metaética segundo a qual a moralidade não existe de modo independente dos nossos desejos, embora seja produto da razão. Kant era construtivista nesse sentido, também, pois mesmo seu imperativo categórico remetia a uma máxima para a ação ancorada não numa lei universal e independente do agente, mas numa lei que o agente pudesse atribuir a si mesmo, antes de tudo, e cuja universalidade era válida apenas na medida de sua própria autonomia. Em outras palavras, a lei moral é construída de acordo com as possibilidades racionais do sujeito, não sendo algo que o sujeito "descobre", "intui" ou "desvela", como se tal lei já estivesse lá, independente de nós, apenas esperando ser reconhecida. E se for isso mesmo que Karnal defende, ele também pode enfrentar problemas, pois posições metaéticas de tipo naturalista ou intuicionista defendem que, sim, há fatos morais objetivos, que podem ou ser identificados na própria natureza (fiz um vídeo intitulado A MORAL É SUBJETIVA?, no qual relato uma pesquisa de antropólogos de Oxford que estudou quase 70 culturas diversas pelo mundo e chegou à conclusão de que existem ao menos 7 noções morais compartilhadas por todos os humanos de todas essas culturas, o que quebra a noção de que a moralidade é um produto meramente histórico), bem como defendem que tais fatos morais podem ser intuídos por qualquer agente humano em qualquer cultura, tais como "matar é em regra errado", "violência gratuita e violência necessária são moralmente distintas" ou ainda "as intenções importam em alguma medida". A questão é que, se existe certa base axiológica que permeia toda a diversidade da realidade humana, provavelmente essa base fundamenta princípios que são historicamente consolidados, embora sejam naturalmente adquiridos ou intuitivamente acessados. De fato eu não poderia ir numa discussão mais longa sobre isso com o Karnal, até porque o Karnal é extremamente pontual e não gostava de ficar socializando com a galera depois da aula, mas se eu tivesse oportunidade, testaria até onde as opiniões dele sobre qualquer assunto que lhe seja apresentado são consistentes, tal como tentei fazer com o Pondé."